Deixa-me ir! Fartei-me de viver debaixo da tua sombra, presa nas tuas teias peganhentas, neste caminho sufocante. Fartei-me de respirar o mesmo ar que tu respiras, de consumir os teus hábitos, de seguir os teus passos, de ouvir os teus conselhos, de viver a tua vida.

Deixa-me ir, deixa-me viver a minha vida.
Deixa-me ir viver os meus passos sozinha, por aí, algures!
Não entendes? Não consegues entender que me estás a sufocar com essa obsessão?
Eu quero ir, não sei bem para onde mas quero. Poder ir para aqui, para ali … sem ti.
Não quero que me digas mais para onde e como devo seguir. Estou cansada de não ter vida, mas apenas opções, de fazer as coisas só porque tu achas que tem de ser assim. Queria seguir a minha vida sem ter que olhar para trás e ver-te ali, a puxares-me para aquilo que tu pretendes, sem pensares em ninguém.
Poder ser feliz novamente, esboçar o meu melhor sorriso, é tudo o que eu peço.
Mas quando penso que está tudo bem, lá vens tu outra vez importunar a minha sobrevivência, fazendo aqueles olhos de quem está perdida, sozinha, abandonada, a pedir a minha mão, o meu coração aprisionado. Custa ver-te olhar dessa maneira, eu não quero mais nada. Acabou tudo, e agora que te apercebes-te das coisas, é tarde demais.
Eu tentei pegar por onde pude, fechar os olhos e ver o arco-íris, algo tão cheio de cor, mas não me foi possível. Nunca senti isto desta forma, com tanta intensidade, com tanto medo. Procurei, sem uma única noite de descanso, mas simplesmente não estava lá, não fui capaz de encontrar nem uma pequena saída.
Demasiadas palavras, pouquíssimos gestos, e bem sei que adoras o viver da minha alma, as forças, a garra com que luto, com que vivo e sobrevivo, mas pára. Basta!
Estou cansada, quanto mais corro, mais acorrentada me sinto. Ganho a sensação que te alimentas das minhas ambições, sonhos, tudo o que me faz mover.
És mais traiçoeira que o mar, a tua mordedura é mais dolorosa que a de uma cobra e mesmo assim continuo aqui. Numa noite, naquele momento mais sombrio, tentei compreender o porquê da tua atitude, o que te faz ser assim tão dura.
Percebi que é na mão do artista, no coração do poeta, dos sobreviventes em tantas outras batalhas, em todos os que tentam falar mais alto, que tu lutas por ti.
E é na brisa do meu sufoco que tentas manter-te viva, acesa, com as poucas forças que tens, que te restam, que te dão. Não és capaz de largar, queres tudo para ti.
Vives na ilusão do teu próprio vazio, nesse teu espaço longínquo. Sem ser capaz de pintar outra cor nessa tua tela.
Eu não gosto de ti. Ou será que gosto?
Talvez se não fosse este desprezo que te tenho, em tanto rancor e mágoa que teimas afincadamente que eu guarde eu conseguisse ver-te com outros olhos.
Mas só por ti mostras a quem sabe e a quem não quer saber o quanto nos adoras assim … Sozinhos, tristes, frios.
Por cada derrota tu mostras o teu orgulho, a vitória com que enches o teu ego.
És cobarde! Simplesmente porque não consegues viver com o facto de que nem sempre consegues fazer com que se desista desta guerra, de todas as escolhas que não nos dão um bom rumo, das aprendizagens que mesmo falhadas insistimos em seguir, e então só te resta puxar-nos para o fundo, para o isolamento mais profundo que podemos ter.
Sempre que paro para pensar, para ver ao ponto a que me levaste, percebo que o tempo passou e nada mudou, tudo se manteve, e eu continuo aqui, sentada, sozinha, à espera de conseguir sorrir, sorrir pela coisa mais pequena que exista, apenas que me quero soltar, ser livre de ti, minha solidão.
De tantos significados que te atribuem, de tanto te confundirem, sinto que por vezes, mas só por vezes, sou a única a saber o que tu realmente és e tudo aquilo que pretendes.
Entregas mais que dor, mais que mágoa, mais que recordações … É um misto de emoções, um fardo que como tantas outras vezes é pesado.
Perdi-me em tempos, fui caminhando, por mais que quisesse nunca me largaste, sempre que me tentei encontrar, ver aquilo que trazia de bom, fizeste questão de me abanar, de me retirar o tapete, o chão dos meus pés. Só te tinha a ti para me segurar, se queria manter-me aqui, tinha de fazer este sacrifício, doar-te aquilo que mais sempre desejas-te, o meu corpo, o meu coração, a minha alma. Hoje, ainda me procuro, vezes e vezes sem conta, mas nunca me consigo encontrar, perdi a noção de onde fiquei.
E quando me olho ao espelho, quando vejo a minha silhueta reflectida em água parada, só consigo ver um esboço, um vulto desfocado, camuflado de preto, com correntes mais fortes que aço e quando vou para perder a esperança, apercebo-me que existe um feixe de luz, luz branca, a luz que eu quiser escolher, bem dentro do meu peito.
Um dia eu não serei tua, ficarás para trás, numa página de vida rasurada, com meras palavras esbatidas, eu serei mais forte que tu. És solidão, mas não és eterna.